quarta-feira, 11 de agosto de 2010

“Ler e Aprender pra Valer”: um projeto para viabilizar o desenvolvimento da competência leitora

A experiência que desenvolvi coordenando e implementando intervenções pedagógicas voltadas para alunos com historia de repetência, levou-me a constatar que estudantes com esse perfil não conseguem sucesso na sua vida escolar em decorrência da fragilidade no seu processo de alfabetização nas séries iniciais, fato este que os levam a apresentar sérias dificuldades para ler e escrever.
Concebi o projeto “Ler e Aprender pra Valer” para a clientela de alunos de 5ª e 6ª séries com dificuldades de aprendizagem em decorrência da falta de aquisição das habilidades e competências de leitura e escrita. Por acumularem essa fragilidade ao longo de sua vida escolar, a despeito de alcançarem, por vezes, e paradoxalmente, progressão escolar, e mudarem de séries, não lêem com fluência, não compreendem o que lêem e não conseguem adquirir conhecimentos das diversas disciplinas. Essa vulnerabilidade os acompanha, impedindo-os, ou dificultando-os seriamente, a alçarem saltos qualitativos na vida estudantil, comprometimento o futuro profissional desses jovens.
Foi a partir dessa constatação que surgiu a idéia de desenvolver uma experiência em classes de alunos da escola pública, no sentido de somar ao projeto pedagógico da escola, uma estratégia de reforço para ajudar a esses alunos a desenvolverem as habilidades de leitura e escrita, instrumentalizando-os para a aquisição de novos conhecimentos nas diversas áreas do currículo.
O Projeto tem como pilares a formação do leitor, com desenvolvimento de estratégias diversas de leitura e produção de texto, sustentada pelos princípios da interdisciplinaridade e avaliação contínua e processual. A proposta envolve todos os professores atuantes nessas classes a partir de um planejamento sistêmico e compartilhado e pressupõe a participação do aluno na montagem das estratégias norteando todo o encaminhamento no cotidiano da sala de aula, pois o seu desejo de participar e suas valiosas contribuições sinalizam para nós educadores o foco de seus interesses e a natureza de suas motivações.
Na trilha de um caminho facilitador para despertar o interesse do aluno no aprendizado da leitura três vertentes de trabalho são sugeridas:
– O envolvimento da família – busca de estratégias para esse fim
– Envolvimento do aluno - a partir da sua participação ativa na construção da proposta pedagógica, destinada a sua formação, e acompanhamento cuidadoso da sua freqüência regular na escola, suas dificuldades e seus potenciais.
– Reflexão da escola sobre o seu Currículo: o que ensinar, como avaliar, onde quer chegar.
Assim, o projeto se apóia em quatro eixos:
1. Integração Escola/Família: Formação de vínculos de parceria e mútuo comprometimento;
2. Fomento a Leitura: Desenvolvimento de atividades de leitura e produção de textos em todas as aulas das diversas disciplinas;
3. Cenários de Aprendizagem: Cada professor, antes de fazer qualquer explanação sobre os assuntos, deve propor a leitura do texto base;
4. Avaliação processual contínua e afetiva - O mais importante da avaliação é averiguar quem está ou não, aprendendo, e buscar caminhos novos para garantir a aprendizagem. A nota administrativa será sempre secundária, não tão relevante quanto se tem praticado;
Interdisciplinaridade: O conhecimento não é compartimentado em caixinhas. No desenvolvimento da competência de Aprender a Aprender constatamos que conhecimentos adquiridos (domínio cognitivo), habilidades desenvolvidas (domínio psicomotor) e atitudes estimuladas (domínio afetivo) em uma área apóiam e facilitam a aquisição de outras aprendizagens.
A Interdisciplinaridade supõe um eixo integrador, que pode ser o objeto de conhecimento, um projeto de investigação, um plano de intervenção. Nesse sentido, ela deve partir da necessidade sentida pelas escolas, professores e alunos de explicar, compreender, intervir, mudar, prever, algo que desafia uma disciplina isolada e atrai a atenção de mais de um olhar, talvez vários (PCN`s, 2002).
Indo mais além, podemos concluir que o desenvolvimento das atividades leitoras é uma tarefa transdisciplinar, na qual todo professor pode participar, desde que seja ele, também um leitor. A transdisciplinaridade é aqui entendida como a interligação dos saberes, necessária perante a complexidade real. FREITAS, MORIN e NICOLESCU assinam a CARTA DA TRANSDISCIPLINARIDADE, na qual se afirma: “Qualquer tentativa de reduzir a realidade a um único nível regido por uma única lógica não se situa no campo da transdisciplinaridade” (artigo 2) e “A transdisciplinaridade não procura o domínio sobre as várias outras disciplinas, mas a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e as ultrapassa” (artigo 3). Para evidenciar a importância da leitura e seu caráter transdisciplinar, Yunes (2003, p.7) afirma: [...] a leitura, como recurso civilizatório, é o que de mais transdisciplinar temos para dar conta de questões que extrapolam método, instrumento, conteúdo, forma e campo de aplicação específico. Ela se apresenta como constituinte mesma do conhecimento, porque ação de um sujeito ou de uma subjetividade em formação, forjando expressão própria, o que, afinal, é a meta principal de qualquer projeto educativo digno deste nome.
Como nos alertou FREIRE (1989), o ato de ler é importante, pois demonstra uma maneira particular de ler o mundo. A maneira como enxergamos o mundo se modifica quando adquirimos o hábito da leitura, pois a leitura verdadeira é a que relê a realidade, ou seja, revela uma visão crítica sobre o mundo. A leitura do mundo não surge com a prática de leitura de textos, a leitura do mundo antecede a leitura da palavra. Assim, antes mesmo de alguém ler uma palavra, já existe uma leitura de mundo que irá basear a leitura da palavra.
Na competição por um lugar melhor na vida, como afirma TORO (1997) em seu Código da Modernidade, os jovens precisam ter domínio da leitura e da escrita; ter capacidade para fazer cálculos e resolver problemas; ter capacidade de analisar, sintetizar e interpretar dados, fatos e situações; compreender e atuar em seu entorno social; receber criticamente os meios de comunicação; ter capacidade para localizar, acessar e usar melhor a informação acumulada; e planejar, trabalhar e decidir em grupo.
Em síntese, o Projeto: “Ler e Aprender pra Valer” utilizando procedimentos metodológicos específicos para instrumentalizar e capacitar educadores em suas unidades escolares, objetiva o fortalecimento da prática leitora dos educandos como condição indispensável à sua formação integral e ao exercício da cidadania responsável.
A tarefa é árdua, mas é gratificante quando se pode observar a contribuição que cada um pode dar para a melhoria dessa juventude que tem na escola o único espaço digno para preparar-se para enfrentamento das lutas do cotidiano.
Referências:
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica.Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: Ministério da Educação, 2002.
FREITAS, L. de; MORIN, E.; NICOLESCU, B. Carta da transdisciplinaridade. Convento de Arrábida, 1994.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em 3 artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados, 1989
YUNES, E. Leitura como experiência. In: YUNES, E.; OSWALD, M. L. (Org.) A experiência da leitura. São Paulo: Loyola, 2003. p.7-15.
TORO, Bernardo. O código da modernidade. Colômbia, 1997

2 comentários:

  1. Muito interessante & importante seu artigo Profa. Maria do Carmo. Coincidência que há poucos instantes eu postei um comentário no FACEBOOK do
    Ex Governador Paulo Souto como segue:
    "Querido governador

    Se o investimento em educação for a prioridade maior do governo
    Brasileiro, escola em período integral nossas crianças vão ter um
    futuro melhor e conseqüentemente diminuirá, a criminalidade, não
    ...vai ser preciso investir tanto em segurança e saúde porque tudo é conseqüência da boa educação."

    Parabéns.


    Agda Silva
    Paixão por uma educação de qualidade
    em tempo integral.
    agdasilv@gmail.com

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  2. Querida Prof. Maria do Carmo,
    A sedução para gostar de ler começa na escola. Entretanto, para poder ler, é preciso saber ler. Portanto, o primeiro passo da escola consiste em assegurar um correto e adequado processo de alfabetização e letramento, bem como o acesso dos alunos a uma variedade de livros e materiais para leitura, utilizada de forma abundante num contexto verdadeiramente transdisciplinar.
    Parabéns pelo projeto, espero que muitos dirigentes escolares a convidem para implementá-lo em suas unidades.

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